16 julho 2010

Ouça o beat que se ouve no mangue

Desde novo olhava o nordeste como o berço da cultura popular brasileira, a arte nordestina sempre me despertou muito interesse. Fui crescendo e passei a me interessar por música e passei a notar a importância da Bahia na música popular brasileira. Cito aqui o samba que na minha opinião foi concebido na Bahia e apenas finalizado no Rio de Janeiro. Cito também a Bossa Nova, que não teria sido Bossa Nova sem a existência do baiano João Gilberto. Cito a Tropicália de Gil, Caetano, Tom Zé e até mesmo o Rock daquele que considero o pai do rock nacional, o digníssimo e baianissimo Raul Seixas. Mas o nordeste para mim se resumia muito a Bahia. Foi então que, no Rock In Rio 3, na tenda Brasil ao lado esquerdo do palco principal vi um show que de fato me fez olhar para um outro pedacinho do nordeste: Pernambuco. O show era do Nação Zumbi, já sem o genial Chico Science (na época não sabia de sua existência), e a partir de então fiquei conhecendo o que anos antes tinha nascido em Recife: o movimento mangue bit (ou mangue beat) que na minha opinião é o movimento mais significativo da música popular desde a Tropicália. Bandas começaram a misturar musica pop internacional como o rap, as várias vertentes da música eletrônica e do rock com ritmos regionais de Pernambuco como o Coco, Maracatu e a Ciranda. Aquilo fez minha cabeça de imediato! Já de saco cheio das bandas e cantores pasteurizados que surgiam na época passei a buscar mais sobre aquilo que ouvia de mais genial. Era música popular, brasileira, contemporânea e de qualidade. A base do movimento: Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, duas bandas que continuam inovando e me encantando. Foi Fred 04 (vocalista do Mundo Livre S/A) que escreveu o manifesto do movimento intitulado Caranguejo com Cérebro que foi publicado em 1992 pela imprensa local. A partir daí passei a ouvir mais e mais coisas de Pernambuco. Lenine me encantou absurdamente com sua poesia livre e violão percussivo e junto com Lula Queiroga fez um dos primeiros discos onde se notava a clara intenção de se misturar rock com música nordestina, "Baque Solto" de 1983. Otto com o seu “Samba pra Burro” me fez ter certeza que estava ali o atual berço esplendido da música popular brasileira. E não poderia deixar de falar dos caras de Arcoverde que me sensibilizaram com seus Cds e shows como nenhuma outra banda até então. Os vi pela primeira vez no filme “Deus é Brasileiro” e imediatamente me apaixonei. Perguntei a uma amiga, de Recife, quem eram e ela me disse: Cordel do Fogo Encantando. Imediatamente comprei os dois discos que haviam lançado na época e fui há 3 shows que fizeram aqui no Rio, foram antológicos para mim. E nesse processo de descobertas da música brasileira gravei meu primeiro disco e a última faixa do disco é uma música que cita o movimento manguebeat que tanto me encantou há 10 anos atrás: “ouça o beat que se ouve no mangue, ouça o som da percussão”. Vida longa para as inovações Pernambucanas.
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