07 dezembro 2010

um pouco mais de tempo

Quando saiu por aquela porta dizendo adeus carregava na mala a sensação de que entraria por ali novamente. E a fechadura seria a mesma, o portão e as paredes da mesma cor. O cachorro que metia medo estaria lá, o gato que sempre o olhava da janela, a árvore no quintal, tudo como sempre foi. E que ela, talvez ainda mais bonita, ainda mais madura, o recebesse de braços abertos. Acreditava que deviam viver um hiato para depois, quem sabe, se juntarem novamente. Viveram anos em função um do outro. Cresceram juntos, choraram juntos, riram juntos. Corpo numa sintonia divina. Alma numa sintonia eterna. Formavam um casal único. Fisicamente eram parecidos. Irmãos de existência? Se perguntava em sua andança pelo mundo. E nas danças solitárias fechava os olhos e era ela quem lhe sorria convidando-o para mais um tango Argentino. E ele abria os braços, e a alegria logo brotava aceitando o convite. E logo depois abria os olhos e as lágrimas jorravam de saudade. Mas seguia na dança, ditando o ritmo. Na andança, pelo mundo. Visitava outras ruas, outras casas, outras bocas e outras camas... e anos passaram. Sabia que junto das cartas e fotografias deixou também a mágoa e incompreensão. E ao acordar naquela manhã com uma vontade desesperadora de bater novamente a antiga porta, preferiu não fazer nada. Respirou fundo, abraçou o travesseiro como se a abraçasse e voltou a dormir com um estranho alívio de que certas coisas já estariam escritas para eles e o reencontro era questão de só um pouco mais de tempo...
Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. "certas coisas já estariam escritas para eles e o reencontro era questão de só um pouco mais de tempo..."

    mesmo que demorasse mais do que imaginava.


    meu anjo,
    amei a preocupação na descrição dos detalhes... e mais uma vez me identifico, na escrita. engraçado como falamos de coisas muito parecidas!


    agradeço!
    bjs meus

    ResponderExcluir
  2. Um pouco triste o texto... Pareciam cenas de um amor burocrático, pré-definido, sem surpresas. Meio morto meio vivo. Talvez ir seja uma das melhores formas de se ficar.
    Bj, xará!

    ResponderExcluir