18 outubro 2011

Intimamente entrelaçado


E a verdade que nunca é dita. E o não dito que tudo contamina. O medo de perder, o medo de sentir. E tem o dito insensível, do cruel disfarçado de sinceridade. Você queimando açúcar na panela de barro deixando apenas o amargo característico e essa viuvez que impregna. Fumaça se alojando nos azulejos da cozinha. E pergunto o que será de você amanhã ou depois de amanhã, ou quem sabe no ano que vem. Paixões, amores, dessabores e solidão. E tudo tão intimamente entrelaçado... E as bundas que passam, as saias que levantam, as calcinhas que abaixam e revelam o excesso de pêlos ou a ausência completa que tanto adoro, e aquela umidade reveladora e o odor que contagia. E isso me lembra um passado querido. Queria as possibilidades de anos atrás com toda a coragem que carrego agora. Respiro esse ar de inverno em plena primavera. Espero na fila do mercado e do meu lado um casal de leveza explicita. Ele absurdamente magro, algumas tatuagens no braço, um brinco em cada orelha e uma barba de anos atrás, até quase o meio do peito. Ela com pernas torneadas, saia jeans justa, cabelo curto, sandália rasteira, barriga de fora e um olhar cheio de doçura pra ele. Se beijam. Sorriem. Iogurte, manga, queijo, presunto e pão árabe no carrinho... Me de um abraço meu amor, e não me abandone por agora. Ainda te vejo nos lugares mais inusitados, no meio da multidão desesperada. Uma luz incandescente que aquece o todo. E não me diga palavras duras. Não se vista de crueldade. Eu quero aquela paz para amanhã. A paz de ontem, de ante ontem, de anos atrás. Mar, sol, água de coco e Maricá. Edredon e fitas amarelas nas caixas de presente. Me entende? Me atende! Me interne no seu colo adoecido de mágoa. E nos cure com o veneno da sua saliva salgada. E na sua presença minha juventude tarda. 


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