01 outubro 2011

Não encaixote o seu melhor

Cair da noite. Ao fundo o morro Dois Irmãos. Areia fria. O barulho do mar no Leblon.
“Sabe, você mudou tanto”.
“Como assim?”.
“É, mudou. Às vezes parece que estou ao lado de um desconhecido”.
“Mas você não pode simplesmente falar que mudei, tem que explicar”.
“Tudo bem. Não vejo mais aquela magia em você, aquele encantamento. Te conheço faz tempo suficiente. Nunca te vi tão pouco interessado como agora. É como se sua aura estivesse desbotada. E acho que você sabe disso. Ainda noto lampejos, reflexos daquela antiga pessoa. E não adianta você se esforçar para ser outro. A mudança tem que ser natural. Senão fica essa coisa meio aleijada, sem propósito. E nos últimos tempos tenho notado uma coisa que me preocupa bastante. Eu te amo, mas amo aquele você de ontem. E quando te olho, quando ligo para ouvir sua voz, é sempre esperando encontrar o ontem e não o hoje. Hoje você é uma pessoa dura, de coração engessado e alma ferida. Ontem tinha aquela ingenuidade libertadora. Eu sei que a vida de tempos em tempos nos presenteia com sacolas cheias de decepções, mas nem por isso temos que endurecer tanto. Eu tô aqui. Sou aquela mesma mulher que você conheceu e compartilhou histórias, aventuras. Lembro da gente subindo a serra ao som de Arnaldo Baptista e alugando aquele chalé caindo aos pedaços. Um frio danado e nós dois vestindo regata. A lareira que não acendia. O vinho de péssima qualidade. Mas havia algo ali. Havia sorriso nos seus olhos castanhos. Havia a tal ingenuidade libertadora. É como se agora você fosse alguém renegando o que o ser humano carrega de mais bonito, a infância. O olhar curioso e encantado para o mundo. Trapezistas, malabares, palhaços nos oferecendo pipoca... Eramos duas crianças divertindo um ao outro. O seu olhar para o mundo era assim. O seu olhar para mim era assim. Havia cores, aromas, desejo pela vida e por compartilhar a vida. Hoje o que existe é um esboço inacabado daquilo que você acha que almeja ser... Endureci certa vez. E isso só me afastou da minha essência. Não quero que você perca o que tem de mais bonito e encantador. Não quero que encaixote o seu melhor. Amoleça e deixa que eu cuido de todo o resto”.

Comentários
8 Comentários

8 comentários:

  1. Prefiro gente endurecida, encaixotando o seu melhor, se conhecendo, se descobrindo, adentrando nessas profundezas doloridas do amor e da existência. Gosto dessa caverna escura onde cada fio de luz representa a eternidade.
    Bem....mas isso é só uma opinião!
    :)

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  2. O duro não sente nada. Nem dor, nem alegria. O duro é apenas um escudo. É feito pedra que nem para ser lapidada da. Nada alcança sua alma. Nem luz e nem escuridão! :* Pra ser penetrável, em todos os sentidos, só com superfície mole! ;)

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  3. Não sei até que ponto alguém, em nome do amor que sente por nós, pode dizer coisas desse tipo a nosso respeito, ainda que sejam verdadeiras.

    Sei lá, gosto de reservas.

    =*

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  4. Pelo primeiro post que li do seu blog, já estou encantado. É como se você, mesmo sem me conhecer, lesse minha alma e a colocasse em palavras! Emocionante e libertador. Seguindo com satisfação!!! Grande abraço!

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  5. Abro um sorriso com suas palavras e isso é sempre!

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