sábado, 14 de janeiro de 2012

Encontro I

Viveram os últimos tantos anos juntos. Amantes de uma vida inteira, se encontravam de tempos em tempos. E quando o tempo se encaixava no tempo numa sintonia uniforme se viam pelo menos uma vez por mês. Outras pessoas passavam pela vida de ambos, mas nada muito traumático. Se conheceram na casa de uma amiga em comum, ideias em comum, livros em comum... Depois trocaram cartas – decidiram deixar a modernidade de lado e fugiram da urgência dos tempos de hoje- e foram assim se conhecendo um pouco mais e se reconhecendo cada vez mais. Ele escritor de bobagens, ela dançarina contemporânea, acreditava no espiritismo, nos astros. Ele olhava meio desconfiado, preferia não acreditar em nada e também não duvidar de nada... Viajaram pelo mundo. Da primeira vez foram pra Portugal. Deram um jeito de fazer sexo no avião, com as mãos. Os corpos se encaixaram desde a primeira noite em que ele sugeriu uma massagem. Não conseguiram se separar depois disso, dessa vez ela acabou ficando uma semana inteira. Já na segunda vez gozaram juntos. Coisa difícil de acontecer para ambos. Naquele dia preparou a mesa do café da manhã com pão de queijo e a acordou com uma rosa. Depois sentou na varanda e escreveu um poema. Diz ele que foi o poema mais bonito que escreveu em anos. Falava sobre a felicidade. Não essa felicidade comum e vendável que parece produção em larga escala. Falava sobre uma felicidade sutil, única, uma felicidade dentro da tristeza. Chorou naquele dia enquanto alguns pingos de chuva caiam dentro do seu copo de achocolatado. Sempre soube ser uma pessoa triste e durante toda uma vida tentou buscar essa dona felicidade, e então percebeu que o que preenchia todo o vazio da sua existência era exatamente a tristeza e que só poderia ser feliz compartilhando isso. E foi nesse momento que ela surgiu do quarto e se sentou na mesa do café da manhã. Disse bom dia para ele e mandou um beijo ainda sonolento. Ele da varanda apenas a observava e na primeira mordida que ela deu no pão de queijo relembrou a noite passada e o gozo simultâneo. E entendeu que ao compartilhar aquele gozo, pulsão de vida e de morte, compartilhou seu vazio e compartilhou sua tristeza, e compartilhando sua tristeza estava compartilhando sua felicidade mais íntima. Ela por sua vez não tinha parado para pensar em muita coisa ainda, apenas no sonho que teve, não lembrava tão bem dos detalhes. Olhava-o olhando a chuva e tentava perceber algum tipo de sinal divino, alguma coincidência astrológica para poder com isso justificar aquele encontro como mágico. Antes de comer o último pão de queijo já tinha percebido que não precisava de nenhum sinal para classificar o encontro como mágico. A magia já estava no encontro inusitado, naquela manhã preguiçosa. A coincidência estava no gozo compartilhado, e nessa aura meio triste que ambos carregavam. Lembrou nesse momento dos olhos de Roberto Carlos sempre transmitindo uma certa tristeza inofensiva. Lembrou que quando criança perguntava a avó porque aquele moço da televisão tinha os olhos tão tristes. Via esse mesmo brilho triste nos olhos dele e em seu próprio. Sentou em seu colo e leu o poema que ele escreveu enquanto ela dormia, o tal que falava de felicidade na tristeza. Se identificou. Ele não sabe se foram os pingos da chuva fina que molharam o rosto dela ou se era uma lágrima que descia de seus olhos. Achou melhor não perguntar. Continuaram sentados, ouvindo a chuva e sentindo o vento frio que tocava a pele. Ele continuou pensando no gozo compartilhado e ela se sentia acolhida pelo corpo dele e pensava nos outros planos espirituais e no que aquele encontro poderia significar... 

0 comentários:

Postar um comentário