01 setembro 2013

Afeto

Sinto um afeto tão grande por você, uma vontade boba de mexer nos seus cabelos, fazer carinho no seu braço, mãos, costas, conversar até o tempo resolver parar, ou simplesmente ficar rindo das pessoas estranhas pelas ruas. Perto de você não tenho medo dos meus preconceitos e nem julgo os seus. Coisa boba, né? Acho que é a primavera chegando, vou ficando mais sensível a pequenas coisas. Posso até dizer que existe sim uma atração sexual da minha parte, mas isso não deveria te assustar, você me conhece, sabe que mulheres como você despertam um desejo grande em mim, uma vontade de estar junto e dentro e de compartilhar uma porção de coisas, como aquela última poesia, aquele último texto ou um domingo como o de hoje. Sabe, da última vez que saímos te achei tão bonita. Estou naquela minha fase de engrandecer bastante o fato de estar sozinho, de achar que há um mar de possibilidades pelo mundo, mas quando estou dividindo as horas com você tudo ganha um contorno tão bonito, uma afetividade tão gostosa que esse meu apego a solidão acaba perdendo totalmente o sentido...

26 agosto 2013

Um algo

O mundo anda em guerra enquanto aqui dentro um algo deseja ser parido. Se contorce e esperneia durante os domingos de tédio maldito, durante as semanas rançosas, as festas com músicas ruins e os rostos sempre sem graça. O mundo anda em guerra e bombas estouram nas esquinas, a fúria é ouvida há quilômetros, as ruas são tomadas por ambulantes, advogados, músicos, médicos, pintores, funcionários públicos, estudantes, poetas, professores, grafiteiros, artistas e trabalhadores de todas as partes... E eu ando por essa multidão, observo cada grito e grito junto, mas aqui dentro, aqui nessa carne que sente uma necessidade terrível de preenchimento, aqui onde o sangue corre vermelho, humano e denso um algo anseia e me soca, no estomago, no coração e implora para encontrar um olhar similar nesse tumulto todo... 

...E alguém me disse uma vez que é amando que descobrimos o melhor de nós mesmos.

24 agosto 2013

Leveza Eterna

Queria te encontrar hoje. Queria perguntar como você tem passado. E queria aquele nosso abraço cheio de afeto e cuidado. Queria te convidar para ir até minha casa e então sentaríamos na varanda e teríamos aqueles nossos papos intermináveis. Olharíamos os apartamentos dos vizinhos e ficaríamos em silêncio. Aquele silêncio bom e necessário que tantas e tantas vezes compartilhamos. E aquele olhar doce lançado um para o outro. Você me ouviria falando bobagem e começaria a rir. Adorava fazer você rir. Seu rosto fino reluzia uma luz bonita, sua boca pequena se abria toda e seus olhos tortos fechavam de forma graciosa. Eu sempre gostei da assimetria do seu rosto, da sua imperfeição. E era essa imperfeição toda que fazia de você perfeita. Era o fato de você ser torta como eu e como a vida que me encantava cada vez que olhava para você. E você sabe a cara de bobo que eu fazia sempre... Hoje fiz uma batida de maracujá, eu sei que você não gosta de álcool mas está tão docinha que acho que você ia querer. Não, a intenção não seria te deixar bêbada apesar da ideia de você bêbada me parecer engraçada. Rio sozinho imaginando a cena. Acho que você ficaria bastante agitada e falante e logo depois bateria um sono que faria você capotar no sofá da sala. Com certeza eu morreria de rir e você grogue de sono ficaria me perguntando do que eu estaria rindo. Te pegaria no colo e te levaria para cama. Daria um beijo na sua testa e você sorriria mesmo dormindo. Te cobriria com uma coberta macia. Principalmente seus pés que provavelmente estariam gelados. Tem feito muito frio por aqui. Uma corrente de ar insiste em se formar entre o quarto e a sala. Te deixaria no sossego do seu sono tranquilo, daquele seu ronronar típico e voltaria para a varanda. Abriria uma garrafa de vinho, pegaria meu caderno de anotações e começaria a escrever. Sempre gostei de escrever enquanto você dormia. Saem coisas grandiosas, lindos poemas quando você está por perto. E é também quando você está por perto que sinto uma tranquilidade assombrosa, uma paz como as brisas de primavera e uma leveza cheia do desejo pelo eterno.

01 agosto 2013

Vamos dormir?

Arcos da Lapa, Evaristo Veiga, Cinelândia. Almoço: quiche de alho poró e uma salada de folhas verdes. Passeio, Glória, Catete, Largo do Machado, água mineral e sonho de valsa. Penso na rotina boa de tempos atrás: acordar, assar pão de queijo, acordar o outro com um beijo. Penso naqueles olhos castanhos - brilham como a luz de outono -, naquela língua, naquela abraço, naquele amor todo, naquela intensidade louca. Sorrio e gargalho sozinho no meio da rua. Crianças correm e velhos jogam dominó. Penso ainda em um tempo mais antigo, que também existia pão de queijo, sorrisos e um afeto enorme, um cuidado absurdo e uma vontade de ficar perto. Praça São Salvador, mexerica importada do supermercado Zona Sul e caminho inverso. Olho as pessoas e penso que qualquer uma daquelas poderia entrar na minha vida naquele momento e mudar tudo. E então criaríamos uma nova rotina, um novo paladar e um novo afeto. A ruiva de calça legging me olhou, fantasio uma vida inteira com ela por alguns segundos. Faço piada de mim mesmo, rio dessa capacidade boba de criar histórias inteiras de amor com pessoas completamente aleatórias. Lembro do último show, do último encontro, da última dança compartilhada na cama, do último sono. Há dias, como o de hoje, que um sono compartilhado basta. “Vamos dormir?”, perguntei a ela em meu pensamento. A resposta foi “sim”.  

13 julho 2013

Não sabemos lidar

 E não sabemos lidar com a dinâmica dos relacionamentos. Não é todo dia que você acordará loucamente apaixonado ou com uma certeza cega de que está amando o outro. Para nós, qualquer página em branco é sinal de perigo, sinal de um fim. E muitas vezes damos fim a algo que mal começou, não temos sabedoria para deixar a coisa amadurecer, tomar forma. Às vezes seria necessário apenas um simples ajuste na engrenagem. Mas são tempos de imediatismo, intensidade extrema e do instantâneo. Buscamos tanto a paz e quando a encontramos nos perdemos. Pois só na paz há espaço para os altos e baixos, o vazio, o silêncio e o ir e vir dos sentimentos. Por fim, inventamos algumas desculpas e vamos novamente para a intensidade da guerra.

01 junho 2013

Que o nome da bússola seja felicidade

 Não há como fazer mal a alguém e sair impune disso – mesmo que sem querer. Os astros, os Deuses, ou simplesmente a física com sua lei da causa e efeito cuidam para que você sinta o mal causado ao outro. Pecado? É você causar o mal. Castigo? É o efeito desse mal. Simples, matemático, automático. E então surge a culpa, o arrependimento e a vontade de ter escolhido diferente. Viver é viajar numa corda bamba. É tentar equilibrar-se no fio da navalha. Todos nós causamos o mal em algum momento. Faz parte do aprendizado, do lidar com um lado nosso que fazemos questão de esconder. E então vem o outro erro, da culpa como bússola de nossas vidas. Ela que passa a nos guiar. Pedir desculpas, perdão, aceitar nossas falhas e aceitar nossa humanidade é bonito e necessário, crescer com elas é essencial, mas deixar a culpa confundir-se com nossa intuição, não. Hoje culpo-me tentando não me culpar. Um olhar generoso para os meus atos. Uma certeza que aquilo fazia parte do aprendizado. E que as leis, os astros, os Deuses já deram-me o castigo necessário. E que a partir de agora o nome da bússola seja a felicidade. Desculpas!

15 maio 2013

Cotidiano Lúdico

Ele não queria que fosse um daqueles romances de estação. Pela primeira vez via-se pensando no eterno, na vida toda, nas rugas sendo cultivadas juntas, na delicadeza de um caminhar longo, tranquilo e profundo. Sentia medo e também uma necessidade absurda. E quando a encontrava na portaria do prédio, ou quando corria logo cedo até a Praça Paris para apenas um beijo de bom dia meio à senhoras praticando Tai Chi Chuan e ao sol ameno de outono rabiscando a paisagem, sentia uma alegria imensurável. Era como se os anos todos de caminhada, desde a tenra idade, todas as histórias e aventuras fossem apenas a vida lapidando-o para então encontrá-la. E foi bem no outono, naquela manhã de abril, os olhos cruzaram-se num sorriso tímido, logo depois as bocas entrelaçaram-se num desejo desconcertante. E houve o encaixe perfeito do corpo, das pernas e das mãos. E a sensação? Duas peças que faltavam no quebra-cabeça, uma complementar a outra formando a paisagem lúdica de um cotidiano que viria, que veio e que agora é.

26 novembro 2012

A paz que queima


Rio de Janeiro, 26 de novembro de 2012 às 4 da tarde 

Como uma empada de palmito e vem-me a cabeça todos aqueles dias que estivemos juntos. Penso que tudo poderia ter sido mais: mais intenso, verdadeiro, mais sem medo, talvez. Não que tenha sido ruim, longe disso. Foram realmente momentos maravilhosos. Mas perdemos tempo demais tentando teorizar os sentimentos. Era carência? Era amor? Era o vazio contemporâneo? Não importava saber. Era AQUILO e AQUILO bastava. E essa é minha única queixa para você, para nós. Enquanto tudo se desenrolava em trilhos suaves insistíamos em teorizar. E o que tinha potencial para ser ainda mais, virou menos, menor, insignificante. Ignoramos AQUILO e todo potencial DAQUILO. Quando você e eu descobrimos nosso melhor lado ficamos nos fazendo perguntas inúteis. E a paz, aquela paz, a tal paz que falávamos tanto enquanto comíamos nessa mesma mesa, essa mesma empada de palmito, com pimenta e azeite, estava lá o tempo todo. E aqui você sabe que não falo de uma paz qualquer. Não buscávamos a paz de um domingo tedioso ou de uma cidade vazia. Não buscávamos a paz pintada de branco. Era a paz laranja que nos encantava, a paz daquela poesia suja com os termos mais absurdos. Uma paz humana e não divina. Não a paz de se compartilhar um guarda-chuva em dia de temporal, e sim a paz de nos molharmos todo, correndo entre os carros, gritando e nos beijando nas marquises, sem nos importar se você estava de blusa branca e sem sutiã e que seus mamilos, mesmo claros, ficariam expostos. Sem nos importa que meu sapato novo ficaria cheio de lama e com cheiro ruim da água empoçada. Iríamos para casa e tomaríamos juntos banho quente e treparíamos cantando palavrões. E gozaríamos caindo na gargalhada. Nossa paz não era a paz do Papa, das igrejas, dos remédios tarja-preta. Era a paz de um pulo duplo de asa-delta à noite, contornando os Dois Irmãos, o Hotel Marina, vendo o Arpoador de cima e toda imensidão desconcertante do mar perdida na negritude da noite. Nossa paz era vermelha feito fogo e nos queimava o peito de felicidade... 

vejo alguns pombos sujos nos tetos dos sobrados 
penso em ligar para você, 
mas não o faço.

05 setembro 2012

Que coisas boas floresçam

Ela disse:
Sinto sua falta no dia a dia, de compartilhar certas coisas que não consigo compartilhar com outros. Foram anos de idas e vindas. Realmente não sei o que o futuro nos reserva, se existirá um nós dois ali na frente; talvez sim e talvez não. Mas quero que saiba que foi importante e isso basta. Não quero acumular raivas ou mágoas de você e nem que acumule de mim. Fizemos o que era possível ser feito, o que estava ao nosso alcance. Faltou um bocado de coisas, mas sempre falta; uma real noção do que se passava, um perdão verdadeiro por todos os erros que cometemos; faltou nos enganarmos menos. Fica um gosto amargo mas também uma leve esperança de um futuro mais colorido. Ficam as canções e os dias bonitos, aqueles em que vivemos felizes para sempre. E que os erros nos ensinem, e que coisas boas floresçam.


28 agosto 2012

Pensei em você hoje

Com carinho absurdo agradeci por ter conhecido-te naquele momento tão delicado. Lembrei do seu sorriso e de nossas risadas. Deu vontade de oferecer-te um abraço apertado e um passeio até a praia, descompromissado. Posso jurar que até seu cheiro invadiu o quarto fazendo brotar uma alegria que não sou capaz de descrever. E pude, de verdade, ouvir sua voz de menina delicada pedindo mimo. O riso nasceu solto lembrando de detalhes e daquele frescor que só você trazia. Pensei em fazer uma música, porém quando penso em você não vem-me poesia, apenas prosa e sempre com reticências no final. Por você, passaria dias e dias escrevendo as mais bonitas e heroicas histórias. Sobre a heroína que dói toda vez que respira, que baila a cada nova vitória e que acima de tudo acredita, carregando uma fé enorme. Ensinou-me tanto em tão pouco tempo, plantou as mais graciosas sementes e hoje já vejo-as crescendo.

22 julho 2012

E viveram felizes para sempre

E viveram felizes para sempre, no inverno passado, no outono de dias frios e céu azul, quando conheceram-se no hall do hotel, aqueles minutos eternos de abraço, no passeio de sábado frio, no verão naquele primeiro mergulho no mar, você no biquíni fio-dental azul petróleo, ele fotografando de longe. Sim, ali vocês viveram felizes para sempre. É onde está o melhor de vocês dois, a vontade de ser um só... Mas todo amor, mais cedo ou mais tarde, configura-se – e logo depois rui - em um pedaço de engano. Hoje andou pelo Centro, foi ao Teatro Municipal e rodou pela Cinelândia. Estava escuro, lua nova no céu. Poucas pessoas na cidade, quase nenhum sorriso. O clima era agradável. Queria o silêncio, apenas ele. Aquele da existência quando uma voz que não a sua – ele a chama de Deus – manifesta-se e nos aconselha e nos acalenta. Ela – a voz – falou de você nessa tarde. Coisas que ele já sabia, algumas bonitas, outras nem tanto. Estava sentado naqueles bancos verdes da praça e no bar em frente pessoas torciam para o Flamengo. O futebol é como a praia, une pobres, ricos, miseráveis. Gostava do Romário quando eu era mais novo, ainda gosta na verdade. Há coisas que queria compartilhar com você, mas há tempo para todas elas como diz o livro de Eclesiastes da Bíblia. Ultimamente tem andando com o Salmo 143 na carteira. Sempre recorreu há algum tipo de amuleto e durante muito tempo o dele foi você, seu trevo de quatro folhas, sua sorte, agora é um pedaço de papel com uma das poesias da Bíblia que mais gosta. Proteção é o que pede nesse começo de noite. Para ele, para você, para o Flamengo e seu adversário, para o Romário, o mendigo, o rico, para o pobre, o religioso. Proteção, é disso que todos precisam meio a maluquice do viver contemporâneo. Carrega um rasgo no peito no caminhar de volta para casa, ainda não cicatrizou, mas continua amando-te, como disse que eternamente faria. E então, viveram felizes para sempre.

29 abril 2012

Quem sabe no futuro


E então ele(a) diz: “Não da pra mim mais, vamos terminar. Sou muito novo(a) para me enfiar de cabeça numa relação, preciso viver outras coisas, desbravar o mundo... Acho que não te amo mais”, e saiu pela porta.

Seis meses depois tinha experimentado cinco bocas diferentes e nenhuma dessas bocas tivera grande importância na sua vida. Lembrava muito pouco das caracteristicas daquelas pessoas, da cor dos olhos, do gosto da língua e do toque. Mas continuava achando que precisava “viver outras coisas”, projetando para o futuro a felicidade do presente. Vivia da vontade criada de viver algo de especial e fugia como o Diabo da cruz do sólido e do palpável. Tudo se desmanchava como um monte de areia nas mãos que vai derramando entre os dedos. E como ele(a), toda uma geração caminha sem saber usufruir aquilo que é oferecido. O que está ao alcance já não interessa mais. Olhamos para um horizonte tão longínquo que não sabemos se o que vemos lá é real ou é miragem. Na ânsia de se viver coisas novas, novas experiências, não se vive nada. O medo de acabar não experimentando algo grandioso na vida cega os olhos para a grandiosidade da experiência diária de se compartilhar os dias. O tempo passa. As possibilidades de hoje não serão as mesmas amanhã. Sequer sabemos se existirá amanhã. Hoje nós dispensamos aquele que amamos e nos jogamos imponente e certo rumo a uma vida criada apenas nos nossos sonhos, e que muito provavelmente continuará apenas ali, no plano do etéreo, do sagrado. Não viajaremos o mundo todo numa aventura solitária e sem rumo. Não conheceremos as pessoas mais interessantes das nossas vidas por estarmos sozinhos(a). Pessoas interessantes, especiais e raras, e exatamente por serem interessantes, especiais e raras, não se encontra todo dia. E talvez, tudo aquilo que pedimos nas orações, nos sonhos e desejos, aquele alguém com todas as caracteristicas que admiramos e achamos necessárias, já esteja ao nosso lado, mas queremos mais, queremos alguém ainda mais interessante, ainda mais especial e ainda mais raro. E a felicidade é deixada para depois, sempre projetada para o futuro, e como o nosso personagem, antes de sair de cena, antes de fechar a porta dizemos: “Olha, só acho que o momento não é agora, mas quem sabe no futuro...”.

16 abril 2012

Fios Dourados


Apareça com todo seu encantamento. Distraia-me. Seduza-me com seu rebolado caracteristico. A castanheira da minha infância verei ao penetrar fundo nos seus olhos e sentirei sua alma feito brisa refrescando minha pele. Sopre devagar seu hálito perto de mim. Sussure palavras doces e sacanas. Diga que me ama. Alimente-me com sua cultura e deixe-me te carregar no colo. Tome banho de chuva. Tome banho de mar, nua, as quatro na manhã. Nossa música sons de uma flauta transversa tocada por você. Na grama verde de algum desses parques espalhados pelo mundo, numa canga colorida em um dia ensolarado, perderei meus dedos nos seus fios dourados.

13 março 2012

Uma historinha qualquer


Errou o passo da dança. Tropeçou. Depois chorou olhando para o teto. Tédio na parede branca e nas lágrimas azuis, desesperança. Mas esboçou sorriso. Riu de si mesmo. Sorriso amarelo. E olha que não fumava e nem bebia café. Pediu cafuné a qualquer fulana que nem lembra o nome. Deita na cama e tenta compartilhar o sono. Noutro dia, empada, chope, poesia no clima ensolarado. Doce de ambrosia para tirar o gosto amargo da boca. É o figado não filtrando nada. E a noite a chuva grossa ensopa sua roupa importada. E o tênis de grife fica todo cheio de lama. E lembra da dança. O ensaio é sempre mais leve que o espetáculo. Não suportou a carga e tropeçou... Pedala para esquecer dos fracassos. Mas não há fracasso, há escolhas. Mesmo assim pedala. Cada vez mais rápido. Cada vez mais longe. Pão de queijo o lembra momentos de descontração. Ela. Somos seres mutantes tentando descobrir o que temos de especial. Escreve para os antepassados. Rasga a receita dos remédios tarja-preta. Rasga as bulas também. Surto. Vista turva. Sonhos embaralhados. Realidade contaminada pela pintura mais íntima do emocional. E mesmo assim não perde seu fogo. Pau duro para quem quiser. A enfermeira de bigode disse sim. Carência ou paixão? Ninguém sabe a diferença. O mundo aprisiona numa realidade turva, oca, opaca. Felicidade é doença? Felicidade também sara? Ouviu alguém perguntando no corredor. Quem é o louco que experimenta a felicidade sabendo que o homem cava a própria cova e re-encena o inferno na Terra. Apocalipse Now! Enquanto os Doors tocam The End no juizo final alguns continuam sorrindo para as fogueiras que os queimarão.

07 fevereiro 2012

Sanduíche caseiro

Permita-se à decadência, ao fracasso, à miséria, as dores mundanas, humanas e cintilantes. Mata-se quantas vezes forem necessárias e renasça sempre com um Q de esperança de que dessa vez será melhor. E depois morra de novo, quando já sem força, sem fé, quando a dor já não couber, e quando a alma estiver anestesiada e opaca enterre as máculas em um buraco bem fundo, em um caixão blindado. Ou queime, creme, que vire pó solto no ar, transitando no universo, nos cantos dos prédios escuros do início século passado, nas ruas mal iluminadas que já sentiram o pisar firme, compassado e descompassado dos homens de ontem, de hoje e de sempre... E quando alguém sorrir para você do outro lado da rua, e quando uma criança quiser segurar suas mãos, ou um mendigo chegar com um jarro de flores e mãos sujas, retribua, com um sorriso, um acenos ou com brilho nos olhos. E descubra então que o valor das coisas está em um outro lugar. Que um dia tempestuoso, que as lágrimas que brotam de uma perda, que furacões, raios e vulcões com seus poderes de destruição carregam também toda a beleza do mundo, como o vento, o fogo, os mitos religiosos. E a verdade, não a absoluta, mas a singela verdade se revelará perante os olhos densos do camarada que chora da varanda daquele apartamento quarto e sala. E nesse momento entenderá que solidão nenhuma é boa companheira por tempo demais. E ao olhar a garota, também na sacada do apartamento quarto e sala em frente ao seu, perceberá que compartilham, sem perceber, momentos preciosos de uma vida inteira, enquanto os pensamentos rodopiam entre uma mordida e outra de um pedaço de sanduíche caseiro...

11 janeiro 2012

Espectro

Por que eu gosto de você? Porque você carrega feridas profundas na alma, você sente Dor. Sua perna dói e seu coração dói, seu corpo como um todo dói. E a Dor aproxima, une; numa dança descompassada seguem os dois aleijados, em pé no picadeiro, tentando equilibrar-se um no outro. O dia hoje foi dolorido e o de ontem ainda mais; mas nos acostumamos a onipresença da Dor. E quando menos espera-se ela surge, sem pedir licença nos da a mão naquele caminhar tranquilo até a praia, e beija nosso rosto e entrelaça nossa vida. E então a Dor vira amiga, companheira da solidão e preenchedora do vazio. Espectro fazendo carinho enquanto bebemos caipirinha nos botecos da Lapa. E não há riqueza ou miséria que constranja a Dor, transita no luxo e no lixo; nas festas na cobertura do Hotel Fasano na Vieira Souto e nos becos mais fedorento da Vila Mimosa. A Dor leva um sorriso leve no rosto e um olhar melancólico que lembra uma lua cheia meio azulada. Sempre elegante, bem vestida, me lembra Carlitos. A Dor não é Tristeza apesar de juntas formarem uma encantadora dupla de artistas de cabaré, de fim de festa, de boteco às cinco da manhã. E foi a Dor que me apresentou você, sussurrou no meu ouvido, como uma velha amiga íntima: “olha, ela também dói, e toda vez que respira”. E então te reconheci, quis cuidar de você, te dar banho, te oferecer flores e desejar o bem, mesmo na Dor. E então me preocupei e cantarolei canções antigas para te ninar e sonhei em preto e branco e pintei o teto do meu quarto de azul, e depois toda a casa de azul. E você me cobriu com seus braços finos, seu coração partido, seu corpo miúdo, seus sonos perdidos; e sua alma tumultuada de dúvidas beijou a minha cheia de desesperança e então e doemos juntos, durante uma vida inteira.

28 dezembro 2011

Suspiro de bom dia


E essa nossa cara de bobo igual a de duas crianças esperando a Kombi do sorvete passar? O que se faz com toda alegria e a felicidade renovada? Dostoiévski diz que um novo sonho é uma nova felicidade. Tô sendo feliz e nem tenho me dado conta. Tenho sonhado e ainda não entendi com o que. Penso na sua dança, na sua voz, na desenvoltura do seu corpo e toda essa flexibilidade que me encanta. Você me lembra aquela pássaro que vi dia desses no Arpoador. Andar gracioso, um olhar encantado, assustado e toda aquela beleza que chega a doer a vista. Uma suave brancura pura carregando uma bagagem de dores dessas que dói sempre que a gente respira. Respira comigo qualquer noite. Tim tim! E engoliremos o vinho tinto brindando o sujo e o limpo desses encontros que parecem marcados de outras vidas. Tenho alguns casos para te contar, histórias tristes e felizes e quero ouvir tudo que você queira me dizer... E na cena da dança de Lua de Fel de Polanski que assisti nessa tarde, só me veio você... Para te oferecer tenho poesia, música, pão de queijo na cama, chocolate quente, leite puro, afago na madrugada fria e toda serventia. Não quero pedir nada, me de apenas o que achar que eu mereço e um suspiro de bom dia.

20 dezembro 2011

Correria

Caminho pelo Largo da Carioca enquanto rostos desconhecidos cruzam rápido meu caminho. Compras de Natal. Penso no amor, no amor que sinto, no amor que senti, no amor dos outros. No amor de Roberto pela Camila. No amor de Gustavo por Antônia. Nas flores que Eduardo enviou para Jéssica. No amor de Elisabete por Luana. Na carta que Samuel escreveu para Washington. Nos olhos brilhantes de Luísa olhando o novo poster do Luan Santana. Da Marlene apaixonada pelo Daniel e tentando conquistá-lo com uma torta de maracujá. Do Robson fazendo música para Caroline. Do Neíldo, um morador de rua, carregando nas mãos sua princesa, um jarrinho pequeno de flor, única lembrança que carrega dos filhos que viu pela última vez andando com a mãe ali pela Candelária. Neildo é alcoólatra. E só é alcoólatra porque foi a única forma que achou de lidar com as dores contemporâneas. Dores que ultrapassam o sentir físico e doem na alma. Dor de um luto que nunca pode ser elaborado. Neildo é alcoólatra por não ter acesso a um psiquiatra e suas tarjas coloridas... Caminho pelo Largo da Carioca e penso nos amores que já tive. Na Natália, na Gabriela, Tarcila, na Munique, Catarina I, Catarina II, Taís, Lívia, Renata, Tatiana, Paula, na moça do ponto de ônibus, da padaria, na morena da Maracangalha, na bailarina do espetáculo de dança de único final de semana que ficou marcado feito tatuagem. Nos amores de longe, nos amores de perto, naqueles que nem viraram amores ainda e que nem sei se virarão. E penso que o homem conseguiu subverter o que não precisava ser subvertido, as duas maiores forças do universo, a que chamamos de Deus e a que chamamos de Amor. Fizemos de Deus nossa imagem e semelhança a ponto de transformá-lo em uma entidade egoísta, vaidosa, mesquinha, vingativa e autoritária. Transformamos Deus naquilo que existe de pior no comunismo e no capitalismo. E do amor fizemos produto com prazo de validade, comprado em qualquer prateleira de qualquer boate da moda ou não, basta pedir com uma dose de Whisky com Red Bull... O amor era um passarinho bonito que batia as asas com leveza e graça. Hoje é um pássaro acorrentado que nem cantar sabe mais... Vou andando pelas ruas, pelo centro de uma metrópole que tanto gosto. Respiro esse ar abafado, essa correria ordinária, e penso que ainda não evoluímos nada...

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15 dezembro 2011

Taça de Cristal

São tempos estranhos esses. Cadê todos vocês? Que caminho pegaremos agora? Dos meus antigos amigos já nem tenho notícias mais. Debaixo daquelas lonas furadas ouvindo nossas guitarras distorcidas e buscando aquele amor inalcançável. Alcancei bem mais do que poderia e bem menos do que sonhava. Um copo de vodca pra você que é de vodca. Eu quero vinho tinto, Merlot, quero seu quadril balançando enquanto olho de longe. Quero a madrugada fria e o colorido decadente das ruas mal iluminas do Rio ou de qualquer outra metrópole do mundo. E quando falo de amor não estou falando de justiça. “Amor só existe na preguiça”, ele me disse, aquele ócio criativo que faz a gente inventar qualquer coisa para nos distrair... E quero dedicar todos os meus pensamos a ela e seu balé improvisado, e a sua beleza que encanta o mais discreto tarado. E o mundo continua rodando nessa velocidade relativa, e tudo na vida continua sendo passageiro, a tristeza na locomotiva à vapor e a felicidade no avião super – sônico. Sonhos! Sonhei que os nossos eram taças de cristais, daquelas caríssimas, mas por descuido deixamos a maioria cair no chão. Despedaçou. Idealizamos demais. Era melhor que nossos sonhos fossem copos de requeijão barato, ou copos de plástico que nunca quebram, daqueles de todas as cores, para colorir muito mais a vida do que taça de cristal de quatrocentos e cinquenta reais...

14 dezembro 2011

Oráculos

... É a natureza dizendo o que precisava ser dito. Tudo que vivemos e sentimos está nela, todos os caminhos. O tempo todo Deus diz: “integre-se à criação, você faz parte dela!”, e então os caminhos se revelam no nosso cotidiano medíocre... Vejo uma borboleta batendo as asas e o bater de asas de um beija-flor. E a nuvem carregada de dias deu lugar ao sol intenso no horizonte. Mudanças repentinas no tempo, e isso nós conseguimos prever com nossa ciência da meteorologia. Estudamos as nuvens, a direção do vento, a umidade... Oráculos, ciência da meteorologia da alma! Da última vez as cartas me disseram tudo, o mal tempo, o sol que despontaria no horizonte no momento exato. Tantos fins de semana de chuva forte e agora o vento fresco chega calmo e balança meu coração...


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